Oi! Acabei de acordar, vamos iniciar de forma clichê: sou a Isadora Fernandes, uma garota comum de uma cidade pequena, se me perguntar qual é o meu sonho ficarei
perdida, com pouca idade não me vejo no
futuro realizando grandes coisas.
Não dá pra enxergar historias nos textos, mas imagine uma parede branca. Pode ser algo infantil, mas é a primeira coisa que vejo ao despertar
de mais um sono profundo. Minha pele pálida
aparenta ser mais velha digamos uns 23,
sim para uma jovem de 17 isso seria um choque. Não
tenho que reclamar muito, os
poucos dias que fico acordada sou bem paparicada.
Ah! Com tantas coisas acabei esquecendo de citar
minha condição, logo que completei treze
anos descobrir que tinha uma doença genética que faz que o meu sono seja
profundo, podemos dizer que entro em
coma diariamente. Até brinco que tenho
uma morte por dia,pode ser qualquer dia ou hora, não existe um padrão, posso ficar um dia sem dormir profundamente ou
até anos, sempre inesperadamente. Especialistas disseram que não existe ainda
um tratamento, principalmente pra uma condição
rara. Muitos me perguntam se tenho medo de não acordar mais, no inicio até fiquei em pânico, de tanto pensar acabei depressiva.
Vivia em um mundo de sonhos, a cada manhã era como uma novela, onde sempre perdia os capítulos importantes. Mesmo como minha condição instável ,não deixei
de fazer nada. Levava sempre o Billy ao
parque, notei que no outro dia Billy não
estava mais na casinha dele, tinha
morrido há dois meses, nesse tempo
ganhei uns quilos. No colégio tudo estava diferente; Vanessa estava com cabelos
longos e Otávio permanecia o de sempre, igual aqueles vampiros de filme. Em casa o
inverno já batia na porta, minha mãe
estava com pequenas rugas, como de
costume assistindo a missa no sofá.
No final da tarde do domingo
Rodrigo me convidou pra sair, sem muitas
opções de diversão na cidade, caminhamos
na praça. Andamos pela calçada, entramos
em uma soverteria, Rodrigo me pegou pelo
braço, sentir sua mão quente e um frio
na barriga, já conhecia ele bem, estudamos desde o primário juntos, mas nunca havia notado o outro lado do
Rodrigo.
Ele se sentou e conversamos
horas, olhei pro relógio e já passava
das onze. No momento de irmos ele me
emprestou o casaco, fiquei sem graça e sorri
vermelha. Na porta da varanda nos
despedimos e nem me lembrei de devolver o casaco. Sentei no sofá e só escutei a voz macia da
minha mãe dizendo: _ Filha apague a luz depois,
só demorou alguns segundos pra tudo ficar opaco, minhas mãos desapareciam em uma visão turva.
Dez de janeiro, o sol atravessava
o horizonte e a voz rouca do carteiro anunciava as boas novas. Levantei e olhei, estava com agulha intra venosa alimentando
meu corpo com soro. A cor da parede era
rosa, me sentir uma criança, após me recompor vasculhei o armário e lá estava o casaco. Disse em tom cansado: _oh mãe!
Vou demorar um pouco mais hoje, vou devolver o casaco ao Rodrigo. Com cabisbaixa a Dona Zeferina, minha mãe,
ela não gosta que a chamo pelo nome,
faço isso pra ela me atender mais rápido, kkkk!
_ Ele não mora mais aqui filha! Como assim mãe? _ ele está morando
com a avó, isso já faz mais de um ano. Sem palavras me
recolhi ao meu quarto e busquei informações nas redes sociais, vi que só
eu que pedir a noção de tempo.
Chegando no meio da semana resolvi retornar ao colégio, as folhas do outono davam sua graça, minhas
notas eram regulares então não tinha
muito problema, podia curti bem os intervalos.
A sala estava mudada com novos alunos,
nesses dias estava gostoso ouvir o som de suspiro e preguiça. Quando o
professor fez a chamada da classe,
sentir uma aceleração no peito,
quando ele disse Rodrigo. Sentir
aliviada, na mesma hora revivi a cena
daquele dia, me envergonhei só de
relembrar.
Na troca de turma para a aula
de educação física, nunca olhava onde caminhava, em um descuido fui em direção a um
rapaz, que me olhou atentamente. Minha mente estava confusa tipicamente coisa
de adolescentes.
No outro dia ele me chamou na rede social, isso me deu um troço, palavras básicas como oi foi mais difícil que
a prova total. A realidade parecia um
mangá romântico, saindo do colégio a brisa
assoviou nos meus ouvidos e logo lá, na
outra esquina Rodrigo surgiu. Antes de ter coragem de gritá-lo percebi o olhar
dele distante. Minutos depois uma loira aproximou-se
dele, era Vanessa , minha melhor amiga. Sinceramente me sentir traída, pelo fato da Vanessa não ter me contado, no fim superei, sabia que ele seria mais feliz ao lado dela.
Apenas era uma a paixonite. Voltando pra casa revi o Tadeu, aquele do colégio, mas a realidade voltou átona e minha condição
e uma vida normal passava longe de
tudo; sonhos, romance e família.
Decidir tomar uma decisão drástica,
fui em uma farmácia e comprei alguns inibidores de sono e os escondi de
baixo do travesseiro. Na sexta Tadeu me
chamou pra uma social com amigos, nesse
dia ingerir os primeiros remédios pra conseguir aproveitar o momento. A noite chorava, receando não acordar mais e ficar longe de
Tadeu, que se tornou um confidente.
Após dias e noites fantásticas decidir largar Tadeu, não suportava cogitar em vê-lo triste. Terminar foi a melhor solução. Tadeu disse que já sabia da minha condição e me aceitava, ficarei ali até eu dormir. Seus olhos foram as últimas coisas que vi e guardei na memória.
Talvez hoje eu ainda esteja dormindo, com uns vinte e cinco anos. Não posso ter
certeza, se era tudo um sonho, pelo
menos eu vivi cada momento.








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