sexta-feira, 23 de junho de 2017

RELATOS DE UMA MORTE POR DIA

Oi! Acabei de acordar, vamos iniciar de forma clichê:  sou a Isadora Fernandes,  uma garota comum de uma cidade pequena,  se me perguntar qual é o meu sonho ficarei perdida,  com pouca idade não me vejo no futuro realizando grandes coisas.

Não dá pra enxergar historias nos textos,  mas imagine uma parede branca.  Pode ser algo infantil,  mas é a primeira coisa que vejo ao despertar de mais um sono profundo.  Minha pele pálida aparenta ser mais velha digamos uns 23,  sim para uma jovem de 17 isso seria um choque.  Não  tenho que reclamar muito,  os poucos dias que fico acordada sou bem paparicada.
 Ah!  Com tantas coisas acabei esquecendo de citar minha condição,  logo que completei treze anos descobrir que tinha uma doença genética que faz que o meu sono seja profundo,  podemos dizer que entro em coma diariamente.  Até brinco que tenho uma morte por dia,pode ser qualquer dia ou hora,  não existe um padrão,  posso ficar um dia sem dormir profundamente ou até anos,  sempre inesperadamente.  Especialistas disseram que não existe ainda um tratamento,  principalmente pra uma condição rara. Muitos me perguntam se tenho medo de não acordar mais,  no inicio até fiquei em pânico,  de tanto pensar acabei depressiva.

 Vivia em um mundo de sonhos,  a cada manhã era como uma novela,  onde sempre perdia os capítulos importantes.  Mesmo como minha condição instável ,não deixei de fazer nada.  Levava sempre o Billy ao parque,  notei que no outro dia Billy não estava mais na casinha dele,  tinha morrido há dois meses,  nesse tempo ganhei uns quilos. No colégio tudo estava diferente; Vanessa estava com cabelos longos e Otávio  permanecia o de sempre,  igual aqueles vampiros de filme. Em casa o inverno já batia na porta,  minha mãe estava com pequenas rugas,  como de costume assistindo a missa no sofá.
 No final da tarde do domingo Rodrigo me convidou pra sair,  sem muitas opções de diversão na cidade,  caminhamos na praça.  Andamos pela calçada, entramos em uma soverteria,  Rodrigo me pegou pelo braço,  sentir sua mão quente e um frio na barriga,  já conhecia ele bem,  estudamos desde o primário juntos,  mas nunca havia notado o outro lado do Rodrigo.

Ele se sentou  e conversamos horas,  olhei pro relógio e já passava das onze.  No momento de irmos ele me emprestou o casaco,  fiquei sem graça   e sorri vermelha.  Na porta da varanda nos despedimos e nem me lembrei de devolver o casaco.  Sentei no sofá e só escutei a voz macia da minha mãe dizendo: _ Filha apague a luz depois,  só demorou alguns segundos pra tudo ficar opaco,  minhas mãos desapareciam  em uma visão turva.
Dez de janeiro,  o sol atravessava o horizonte e a voz rouca do carteiro anunciava as boas novas.  Levantei e olhei,  estava com agulha intra venosa alimentando meu corpo com soro.  A cor da parede era rosa,  me sentir uma criança,  após me recompor vasculhei o armário  e lá estava o casaco.  Disse em tom cansado:  _oh mãe!  Vou demorar  um pouco mais hoje,  vou devolver o casaco ao Rodrigo.  Com cabisbaixa a Dona Zeferina,  minha mãe,  ela não gosta que a chamo pelo nome,  faço isso pra ela me atender mais rápido, kkkk!
_ Ele não mora mais aqui filha! Como assim mãe? _ ele está morando com  a avó,  isso já faz mais de um ano. Sem palavras me recolhi ao meu quarto e busquei informações nas redes sociais,   vi que só eu que pedir a noção de tempo.   
Chegando no meio da semana resolvi retornar ao colégio,  as folhas do outono davam sua graça, minhas notas eram regulares  então não tinha muito problema, podia curti bem os intervalos.  A sala estava mudada com novos alunos,  nesses dias estava gostoso ouvir o som de suspiro e preguiça. Quando o professor fez a chamada da classe,  sentir uma aceleração no peito,  quando ele disse Rodrigo.  Sentir aliviada,  na mesma hora revivi a cena daquele dia,  me envergonhei só de relembrar. 
  Na troca de turma para a aula de educação física, nunca olhava onde caminhava,  em um descuido fui em direção a um rapaz,  que me olhou atentamente.  Minha mente estava confusa tipicamente coisa de adolescentes.
No outro dia ele me chamou na rede social,  isso me deu um troço,  palavras básicas como oi foi mais difícil que a prova total.  A realidade parecia um mangá romântico,  saindo do colégio a brisa assoviou nos meus ouvidos e logo lá,  na outra esquina Rodrigo surgiu. Antes de ter coragem de gritá-lo percebi o olhar dele distante.  Minutos depois uma loira aproximou-se dele,  era Vanessa ,  minha melhor amiga.  Sinceramente me sentir traída,  pelo fato da Vanessa não ter me contado,  no fim superei,  sabia que ele seria mais feliz ao lado dela. 
 Apenas era uma a paixonite.  Voltando pra casa revi o Tadeu,  aquele do colégio,  mas a realidade voltou átona e minha condição e  uma vida normal passava longe de tudo;  sonhos,  romance e família.
Decidir tomar uma decisão drástica,  fui em uma farmácia e comprei alguns inibidores de sono e os escondi de baixo do travesseiro.  Na sexta Tadeu me chamou pra uma social com amigos,  nesse dia ingerir os primeiros remédios pra conseguir aproveitar o momento.  A noite chorava,  receando não acordar mais e ficar longe de Tadeu,  que se tornou um confidente.

             Após dias e noites fantásticas decidir largar Tadeu, não suportava cogitar em vê-lo triste.  Terminar foi a melhor solução.  Tadeu disse que já sabia da minha condição e me aceitava,  ficarei ali até eu dormir.  Seus olhos foram as últimas coisas que vi e guardei na memória.

           Talvez hoje eu   ainda  esteja dormindo,  com uns vinte e cinco anos. Não posso ter certeza, se era tudo um sonho,  pelo menos eu vivi cada momento. 

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